Fazia algum tempo que ele não a via. Ela, porém, encontrava-se no mesmo lugar de sempre: apartamento 61 do edifício Bela Vista. Aliás, ele não tinha esse nome por um acaso, a paisagem que se esmerava daquela sacada era magnífica; montanhas, pôr do sol e muitas casinhas modestas. Entrou sorrateiro, como sempre fez. Ela resava, para variar. Sussurrava algumas palavras que por hora se perderam com aquele reencontro. Ele pediu a bênção. Ela fixou os olhos nele e disse: você está tão bonito! Agradeceu de bom grado e foram para a sacada. Lá, naquele vaidoso mirante é que se deu o lapso. Ela não reconheceu nele a pessoa que ele dizia ser. Confundiu os netos. Sim, eles eram parecidos, mas não tão iguais a ponto dos olhos de uma avó não os distinguir.
Foi triste.
O tempo é implacável e como dizia Gregório de Matos: "...trota a toda lijeiresa e imprime a todos sua pisada..."
Todos nós sofreremos desse tormento. O tempo é o maior paradoxo tangível. Com o mesmo fervor que ele cura a dor incurável ele implaca a dor que não passa. É relativo, fugidio, vago, imenso, pequeno, vil, doce ...
Não fora a primeira das confusões. A lucidez já não é a mesma e se apresenta como um retrato deturpado das vicissitudes cotidianas. Porém, caro leitor, se você, agora, lembrar-se de alguém em situação parecida, se se identificou com tal relato, não sinta pena.
Da mesma maneira que o neto soube interpretar o equívoco naquele olhar denso, ele soube identificar um amor que palpitava pelos olhos de sua avó, piscinas que saltavam à face dela. Este, o amor, sempre será o mesmo; inesquecível, intransferível e que ficará guardado no maior encanto de quem conhece a bela jornada já traçada e que reconhece naquele ser humano "estranho" toda a sua beleza.
terça-feira, 3 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
Xeque-mate
O que leva uma pessoa a mentir?
Não consigo raciocinar encima deste disparate. É incrível descobrir que você é um assíduo frequentador do telefone aviltante sendo que sequer o número você se lembra. É incrível saber que você é apaixonado por uma pessoa sendo que, no mínimo, a indiferença é a que impera. É incrível saber que foi você quem estragou tudo aquela vez, com aquele "outro", você espalhou o secreto, semeou o indizível, mas nunca, meu caro leitor, você saberá o que terá dito, ou melhor, o que certamente nunca disse.
O ato de mentir se esgota nele mesmo. Ele denota uma imaginação altamente fecunda, mas veementemente tacanha, rasa. Tais mazelas verborrágicas deterioram a vida alheia e produzem situações que certamente poderiam ser evitadas.
Tão feio quanto mentir é ser complacente com ela. Execre os mentirosos e o seu conluio.
Não consigo raciocinar encima deste disparate. É incrível descobrir que você é um assíduo frequentador do telefone aviltante sendo que sequer o número você se lembra. É incrível saber que você é apaixonado por uma pessoa sendo que, no mínimo, a indiferença é a que impera. É incrível saber que foi você quem estragou tudo aquela vez, com aquele "outro", você espalhou o secreto, semeou o indizível, mas nunca, meu caro leitor, você saberá o que terá dito, ou melhor, o que certamente nunca disse.
O ato de mentir se esgota nele mesmo. Ele denota uma imaginação altamente fecunda, mas veementemente tacanha, rasa. Tais mazelas verborrágicas deterioram a vida alheia e produzem situações que certamente poderiam ser evitadas.
Tão feio quanto mentir é ser complacente com ela. Execre os mentirosos e o seu conluio.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Rabiscos
Grande noite. Muito vinho, pessoas desconhecidas inseridas num mundo que acaba de se tornar mais conhecido para nós. Muitos assuntos interessantes, muitas palavras jogadas ao relento.
Risadas.
O reencontro dos que passaram algum tempo afastados. Quem os via achava que o longo período era o de no máximo 48 horas.
Proximidade.
Epifanias.
Chão.
Enfim, retornavam.
Risadas.
O reencontro dos que passaram algum tempo afastados. Quem os via achava que o longo período era o de no máximo 48 horas.
Proximidade.
Epifanias.
Chão.
Enfim, retornavam.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Fragilidade
No dia 2 de Fevereiro de 2009 o Brasil assistiu a mais uma derrota em seu sistema partidário. O PMDB com a dobradinha Sarney-Temer elegeu o presidente do Senado e da Câmara, respectivamente. Resumindo: os "coronéis" dominaram o poder Legislativo de forma clara e contundente. Pior: o PT e o PSDB, situação e oposição, nada conseguiram fazer para que o levante peemedebista se consumasse.
Olhando esse painel que se instaurou e refletindo sobre as eleições de 2010 chegamos a uma questão inexplicável. O PMDB, maior partido da nação, absoluto no Congresso, nos Estados, nos municípios não possui nenhum nome para concorrer à Alvorada. Com a magnitude que tem, a congregação não consegue renovar seus quadros, ampliar o horizonte com novos nomes na política, novos políticos, nada! Existe aqui uma crise partidária absurda e que é administrada presidente após presidente.
Para o pleito de 2010 temos os nomes de José Serra, Aécio Neves e Dilma Rouseff. Alguém poderia lembrar de algum militante peemedebista ?
O leitor mais afoito dirá: "Mas há a possibilidade de Aécio mudar de partido!". Ledo engano. Não mudará. O que teremos é uma convenção interna no PSDB definindo, obviamente o nome de José Serra. O governador mineiro, para não cair no ostracismo, sairá candidato a uma vaga no Senado. Isso é quase uma verdade absoluta.
É frustrante. Não se vê um rosto novo na cena política. Nenhum. Nos EUA o fenômeno Obama, mesmo que se mostre uma farsa, reavivou a esperança em solo norte-americano, americano e porque não dizer global. Por aqui, nos animamos com Sarney, que completará 54 de vida política, magnifico !
A reforma política é importante, imprescindível para que a nação tome rumos diferentes, novos. Enquanto múmias ambulantes tomarem conta de Brasília, que nem completou 50 anos, o nosso país tupiniquim viverá a diacronia da modernidade que o mundo exige com o conservadorismo avassalador que esses "enfaixados" representam.
Olhando esse painel que se instaurou e refletindo sobre as eleições de 2010 chegamos a uma questão inexplicável. O PMDB, maior partido da nação, absoluto no Congresso, nos Estados, nos municípios não possui nenhum nome para concorrer à Alvorada. Com a magnitude que tem, a congregação não consegue renovar seus quadros, ampliar o horizonte com novos nomes na política, novos políticos, nada! Existe aqui uma crise partidária absurda e que é administrada presidente após presidente.
Para o pleito de 2010 temos os nomes de José Serra, Aécio Neves e Dilma Rouseff. Alguém poderia lembrar de algum militante peemedebista ?
O leitor mais afoito dirá: "Mas há a possibilidade de Aécio mudar de partido!". Ledo engano. Não mudará. O que teremos é uma convenção interna no PSDB definindo, obviamente o nome de José Serra. O governador mineiro, para não cair no ostracismo, sairá candidato a uma vaga no Senado. Isso é quase uma verdade absoluta.
É frustrante. Não se vê um rosto novo na cena política. Nenhum. Nos EUA o fenômeno Obama, mesmo que se mostre uma farsa, reavivou a esperança em solo norte-americano, americano e porque não dizer global. Por aqui, nos animamos com Sarney, que completará 54 de vida política, magnifico !
A reforma política é importante, imprescindível para que a nação tome rumos diferentes, novos. Enquanto múmias ambulantes tomarem conta de Brasília, que nem completou 50 anos, o nosso país tupiniquim viverá a diacronia da modernidade que o mundo exige com o conservadorismo avassalador que esses "enfaixados" representam.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Angústia e Pânico
Será um post egoísta. Falarei de mim.
É tão engraçado como o nosso corpo, a nossa cabeça responde de diferentes maneiras aos estímulos que recebemos dioturnamente. Minha cabeça, meu corpo, não é de hoje, não se encontra em plenitude de energia. Deficitário. Penoso. Árduo. Vaga sem estima.
A alguns meses essa penúria me acompanha, e de um mês pra cá ela se intensificou de maneira capital. Torço para que os dias corram, para que eu deite a cabeça no travesseiro e me perca em sonhos psicodélicos. O dia se tornou sinônimo de dor. Limiar tênue da vida digna.
Aguentei até ontem. Resisti. Perdi para mim.
Diagnóstico: você está sofrendo de angústia, uma pré-depressão.
Meu Deus, das últimas coisas que eu poderia imaginar. A última. Não que eu me achasse uma fortaleza, uma barreira que não sofre quedas. Mas sempre fui tão otimista, perseverante. Depressão ?
As coisas se encaixam. O "(S)sorriso" não é mais o mesmo. Forçado. Sem expressividade, sem verdade ... isso, sem verdade !!!
Assitiamos ao documentário sobre Vinícius de Moraes quando o diagnóstico foi dado. O estranhamento foi natural, mas depois as coisas se acomodaram. Tudo se explica.
Felicidade demais é desespero, fato. Sofro do amor total, pleno. Tão bonita imagem, o amor produzindo angústia. É o que se paga pela entrega sem limites que se faz. É uma escolha. É uma forma de viver, que é intensa, mas que será cobrada se não for tratada de maneira recíproca.
Bobagem esmiuçar meus sintomas, minhas fobias, minhas dores. Só eu sei o que realmente se passa. Só gostaria de alerta-los, meus amigos, queridos leitores, que vou sair dessa.
Acredito na minha força interior, dilacerando a carne já cansada e dando lugar à nova. Vocês tem papel imprescindível nessa batalha. Cada um a sua maneira saberá como agir.
Nada será como antes: amanhã !!! Já diziam Milton Nascimento e Lô Borges, queridos conterrâneos. Agora é olhar pra frente, resistir.
Soneto
Vinicius de Moraes
Meus caros, volta-se porque se tem saudade
Porque se foi feliz intimamente
Volta-se porque se tocou num inocente
E porque se encontrou tranquilidade
A despeito da vida que acorrente
Volta-se, volta-se para a sinceridade
Volta-se sempre, tarde ou de repente
Na alegria ou na infelicidade.
E nada como esse apelo da lembrança
Para se transfigurar numa esperança
Essa desolação que uma alma leve
Assim é que, partindo, eu vou levando
Toda a desolação de um até-quando
Num ardente desejo de até-breve.
É tão engraçado como o nosso corpo, a nossa cabeça responde de diferentes maneiras aos estímulos que recebemos dioturnamente. Minha cabeça, meu corpo, não é de hoje, não se encontra em plenitude de energia. Deficitário. Penoso. Árduo. Vaga sem estima.
A alguns meses essa penúria me acompanha, e de um mês pra cá ela se intensificou de maneira capital. Torço para que os dias corram, para que eu deite a cabeça no travesseiro e me perca em sonhos psicodélicos. O dia se tornou sinônimo de dor. Limiar tênue da vida digna.
Aguentei até ontem. Resisti. Perdi para mim.
Diagnóstico: você está sofrendo de angústia, uma pré-depressão.
Meu Deus, das últimas coisas que eu poderia imaginar. A última. Não que eu me achasse uma fortaleza, uma barreira que não sofre quedas. Mas sempre fui tão otimista, perseverante. Depressão ?
As coisas se encaixam. O "(S)sorriso" não é mais o mesmo. Forçado. Sem expressividade, sem verdade ... isso, sem verdade !!!
Assitiamos ao documentário sobre Vinícius de Moraes quando o diagnóstico foi dado. O estranhamento foi natural, mas depois as coisas se acomodaram. Tudo se explica.
Felicidade demais é desespero, fato. Sofro do amor total, pleno. Tão bonita imagem, o amor produzindo angústia. É o que se paga pela entrega sem limites que se faz. É uma escolha. É uma forma de viver, que é intensa, mas que será cobrada se não for tratada de maneira recíproca.
Bobagem esmiuçar meus sintomas, minhas fobias, minhas dores. Só eu sei o que realmente se passa. Só gostaria de alerta-los, meus amigos, queridos leitores, que vou sair dessa.
Acredito na minha força interior, dilacerando a carne já cansada e dando lugar à nova. Vocês tem papel imprescindível nessa batalha. Cada um a sua maneira saberá como agir.
Nada será como antes: amanhã !!! Já diziam Milton Nascimento e Lô Borges, queridos conterrâneos. Agora é olhar pra frente, resistir.
Soneto
Vinicius de Moraes
Meus caros, volta-se porque se tem saudade
Porque se foi feliz intimamente
Volta-se porque se tocou num inocente
E porque se encontrou tranquilidade
A despeito da vida que acorrente
Volta-se, volta-se para a sinceridade
Volta-se sempre, tarde ou de repente
Na alegria ou na infelicidade.
E nada como esse apelo da lembrança
Para se transfigurar numa esperança
Essa desolação que uma alma leve
Assim é que, partindo, eu vou levando
Toda a desolação de um até-quando
Num ardente desejo de até-breve.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Sobre nada e qualquer coisa ...
Vontade fulminante de escrever, externizar toda a lamuria esquizofrênica. Vontade de me rasgar, mostrar aos que me acompanham na longa jornada o que de fato sinto.
Quantas vezes todos nós sentimos esse desespero que parece ser maior que nós? Maior do que nossas próprias forças. Toda essa intensidade desmedida é canalizada, transforma-se em lágrimas serenas que por vezes mal chegam a rolar, ficam entaladas num coração relutante e masoquista.
A vida é cheia dessas dicotomias: um poço de reminiscências e divagações ( violento ) é talhado e se transforma em lágrimas, num desabafo calado ( sereno ).
Das dicotomias: praia e montanha. "Como é bom ir para o mar !", diz sempre um bom mineiro. Descer o Mantiqueira e chegar ao zero. Sem altitude. Sem expectativas. Vamos começar do zero. Ah, como seria bom ir para o mar, no zero, e zerar nossos imbróglios.
Não importa se é ilusão. A verdade se perfaz na mente e creio que se possa olhar mais para o parabrisa do que para o retrovisor, neste ano que mal começou e já se mostrou transformador.
Voltar à montanha. À morada. A Serra da Mantiqueira abraçando a pequena cidade. Daqueles abraços grandes e quentes, que acolhem o conterrâneo que viveu, mas não se esqueceu da velha fronteira. Clube da esquina, botecos, conversas em vão ...
Metrópole: São Paulo, aguardo- te como nunca. Ajude-me a ser forte, sendo a carne fraca.
Quantas vezes todos nós sentimos esse desespero que parece ser maior que nós? Maior do que nossas próprias forças. Toda essa intensidade desmedida é canalizada, transforma-se em lágrimas serenas que por vezes mal chegam a rolar, ficam entaladas num coração relutante e masoquista.
A vida é cheia dessas dicotomias: um poço de reminiscências e divagações ( violento ) é talhado e se transforma em lágrimas, num desabafo calado ( sereno ).
Das dicotomias: praia e montanha. "Como é bom ir para o mar !", diz sempre um bom mineiro. Descer o Mantiqueira e chegar ao zero. Sem altitude. Sem expectativas. Vamos começar do zero. Ah, como seria bom ir para o mar, no zero, e zerar nossos imbróglios.
Não importa se é ilusão. A verdade se perfaz na mente e creio que se possa olhar mais para o parabrisa do que para o retrovisor, neste ano que mal começou e já se mostrou transformador.
Voltar à montanha. À morada. A Serra da Mantiqueira abraçando a pequena cidade. Daqueles abraços grandes e quentes, que acolhem o conterrâneo que viveu, mas não se esqueceu da velha fronteira. Clube da esquina, botecos, conversas em vão ...
Metrópole: São Paulo, aguardo- te como nunca. Ajude-me a ser forte, sendo a carne fraca.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
O silêncio de Obama
Israel
Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidosvenha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterácom Israel a "relação especial" que liga os dois países, emparticular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes(e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeramantes sem precisarem de outra justificação que a tal "relaçãoespecial" com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos. Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costasde Gaza eram palestinas ) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: "Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime".
José Saramago
Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidosvenha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterácom Israel a "relação especial" que liga os dois países, emparticular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes(e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeramantes sem precisarem de outra justificação que a tal "relaçãoespecial" com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos. Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costasde Gaza eram palestinas ) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: "Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime".
José Saramago
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