segunda-feira, 11 de abril de 2011

O contador de histórias

Saravá, caro leitor. Há quanto tempo já não sento aqui para trocar algumas impressões e fazer com que pensemos mais sobre um assunto qualquer. Podem dizer que sofro da ingratidão para com meu companheiro de copo. Assumo a dívida e espero me eximir daqui pra frente com boas novas.

Cansado de somente escrever sobre as mazelas da Capital, sobre as desventuras do ser humano, resolvi escapar da rotina.

Vamos ao que interessa.

Não nos soa confortante quando nos vemos retratados na história de outrem? Reflitam comigo: um colega começa a contar sobre a grande viagem que fez à China, daquele destemperança no trânsito, da reunião de família, dos amores. Não só nos traz a noção de que os fatos nunca estão isolados no mundo e mais do que isso, de que todos nós, de alguma maneira, fazemos parte de uma ou outra história.

Um bom contador delas consegue lhe transportar para o relato dele. Introspectivo leitor, já lhe ocorreu de no meio daquela conversa despretenciosa você escutar aquele "estalo" e perceber que aquela história não pertence ao emissor, mas a você mesmo?!

Fiz essa digreção para lhe trazer um problema de ordem técnica, e aqui sua ajuda me será útil.
O bom contador de histórias consegue fazer delas todas um ensejo para organizar ideias. Conforme ele conta, coloca os pingos nos "is" e realoca aquilo que outrora era confuso. No entanto, ele pode o fazer de maneira totalmente equivocada, para não dizer que ele flerta com o irreal. Você, que se via ali, aplacado pela realidade crua do conto já vislumbra um outro ente. Trocando em miúdos: falsearam o mundo real das lembranças. O que fazer? Eu já não sou mais o ente de carne e osso que viveu aquele momento, muito menos o ser que sai pelas palavras daquela boca. O ente de outrora já também não encarna na cabeça do emissor como deveria. Ele é fruto de esquecimentos, algumas pitadas de imaginação e reflexões "a posteriori" que o fazem quase um rascunho perdido.

Vejo-me por muitas vezes assim; um rascunho perdido na cabeça de muitos.
Entro pela porta da frente, como sempre fiz, mostro meu rosto, velho conhecido, peço o mesmo chopp, a mesma porção de bolinho de bacalhau, uso as mesmas calças jeans de anos, aquela camisa preta lisa, a mesma barba por fazer. Por dentro já não mora o rascunho, nem o ente de carne e osso do passado. Como me apresentar? Como fazer para tentar mudar a impressão de sempre?

Se você souber como, me dê a chave desta problemática.
Já não sei se sou um ou outro.

Um comentário:

Priscila C. Souza disse...

Gostei muito do causo :P
Melhor frase: "Vejo-me por muitas vezes assim; um rascunho perdido na cabeça de muitos!"
Mesmo com as mudanças e experiências, ainda somos os mesmos...